terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Cresce a terapia com games

Eletrônicos ajudam no tratamento de crianças especiais, como as autistas
Publicado no Jornal OTEMPO em 05/02/2012
BÁRBARA CAMARGO ESPECIAL PARA O Tempo Tecnologia
 
O uso de videogames no tratamento terapêutico de portadores de autismo e síndrome de Down está se tornando cada vez mais frequente. Utilizando tecnologia que dispensa o uso de controles e botões, esses jogos e softwares pedagógicos estão ajudando crianças com necessidades especiais a terem acesso a um universo de informação que nunca tiveram antes.

Por serem de fácil manuseio, os games estão não só contribuindo para a melhoria das habilidades motoras dessas crianças, mas também ajudando no desenvolvimento de capacidades neurológicas, como concentração e foco. Duas habilidades ausentes, por exemplo, nos portadores de autismo - que possuem também dificuldades de compreensão e de expressão.

O professor Arthur Kummer, do Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), explica que, apesar de parte dessas tecnologias já serem utilizadas pela ciência há algum tempo, essa é a primeira vez que os videogames estão sendo recomendados e utilizados nos consultórios médicos - e também pelos pais -, como parte de um tratamento pedagógico.

O cientista da computação e mestre em engenharia eletrônica Murilo Queiroz é pai de Max, 5, portador de autismo, e há algum tempo presenteou o filho com um tablet Android, munido de jogos que ensinam o garoto a executar tarefas diárias e a fazer uso da linguagem verbal.

Usando games que primam por brincadeiras que reforçam e recompensam a criança, Queiroz contou que, desde o início do uso dos jogos para tablets, houve um progresso significativo na cognição do filho. "Sobretudo nos quesitos concentração e foco. Antes, o Max não conseguia ficar mais de dois minutos centrado em uma só atividade. Hoje, ele passa 20, 30 minutos desenhando na escola", conta.

Cuidados. A coordenadora do Ambulatório de Terapia Ocupacional da UFMG, Lívia Castro, lembra que, por essas patologias que envolvem deficiência mental e motora terem intensidade de retardo neurológico diferentes, o ideal é que cada terapia, seja ela com jogos eletrônicos ou não, passe antes pelo crivo de um terapeuta ocupacional, de um psicólogo e de um fonoaudiólogo.

Kummer concorda com a especialista e ressalta ainda que existem ferramentas que podem ter efeitos contrários ao que se espera. "Foi descoberto, por exemplo, que os Teletubies têm um impacto desastroso na linguagem da criança. Além disso, a ciência não dá conta de acompanhar a evolução de todos esses softwares. Muitos que estão no mercado não foram testados", observa ele.

Pesquisa
"Treino" também ajuda os estudantes
Pesquisa realizada em 2011, pela Universidade de Nottigham, do Reino Unido, mostrou igualmente a evolução nas habilidades médias de estudantes portadores de variados graus de autismo e síndrome de Down depois de treinarem, por cinco meses, técnicas motoras e
cognitivas em jogos de tênis e boliche no Kinect e Nintendo Wii.

Segundo a pesquisadora que coordenou os estudos, Rachel Folds, da Escola de Educação de Nottigham, quase 90% desses jovens de 16 a 24 anos submetidos aos testes declararam que os games conseguiram de fato captar sua atenção, além de terem ensinado coisas que não esperavam. Por essa razão, teriam o desejo de continuar a utilizá-los como ferramenta de ajuda nos estudos, para conseguir uma vaga na universidade no futuro.

O psiquiatra da infância e da adolescência Arthur Kummer alerta, principalmente os pais, para o fato de que o tratamento desses pacientes não funciona de forma isolada, ou seja, os jogos eletrônicos não podem ser priorizados em detrimento de outras terapias. Pessoas com necessidades especiais precisam desenvolver diversas habilidades, como a atenção, o equilíbrio, a coordenação motora e a fala. (BC)

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