domingo, 8 de maio de 2016

Famílias protestam por direitos dos autistas na praça da Liberdade

Segundo estimativa da Polícia Militar, cerca de 200 pessoas participaram do encontro; ato teve contação de histórias, música, lanche e pintura com as crianças


Protesto autismo
PUBLICADO EM 03/04/16 - 15h59
 LUIZA MUZZI
Normalmente associado ao estereótipo da introspecção e isolamento, o autismo encheu de cores e alegria, neste domingo (3), a praça da Liberdade, na região Centro-Sul da capital. Para conscientizar a população sobre os direitos dos autistas, dezenas de famílias e grupos de apoio se reuniram na praça, em ato que teve contação de histórias, música, lanche e pintura com as crianças. Segundo estimativa da Polícia Militar, cerca de 200 pessoas participaram do encontro.
Realizado anualmente, o evento também teve como objetivo mobilizar a sociedade e pressionar o poder público para melhoria das políticas de atendimento a autistas. "A ideia é mostrar para a população que essas pessoas existem, são muito capazes e têm direitos também. A gente não quer esmola do poder público, mas políticas públicas eficientes", defendeu Maurício Moreira, presidente do instituto Superação, associação sem fins lucrativos que atua na defesa de direitos e orientação de famílias de pessoas com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) em Minas.
"A inclusão já melhorou, os meninos não são rejeitados mais em escolas, por exemplo, mas falta suporte, acompanhamento, adaptação de material, e ainda existem muitos problemas nos serviços de saúde", explica Moreira, que desde 2010 vem conversando com todas as instâncias de governo, em busca atendimentos dignos aos portadores do autismo. "A educação avançou muito, mas a saúde não mudou nada em seis anos".
Vice-presidente do instituto Superação, Gladstone Barbosa Alves, 38, que é portador do transtorno do autismo e tem dois filhos autistas, conta que tem sido comum nos últimos anos o movimento migratório de famílias, que deixam seus Estados em busca de melhores tratamentos. "Estamos nessa luta há seis anos e vemos pouca diferença nesse tempo em relação aos serviços públicos. Nossa família mesmo está mudando de Belo Horizonte por causa disso.
Aqui, o serviço de saúde absorve Minas Gerais toda. Vamos para São Bernardo do Campo, em São Paulo, para ter acesso a serviços de melhor qualidade".
Alves conta que, após muitas decepções na rede de saúde pública da capital, procurou a iniciativa privada para tratamento dos filhos. "O que conseguimos pagar a gente fez. Mas está longe do ideal. Ainda é tudo muito caro", diz. Um dos problemas, para ele, é a falta de diagnósticos ou a realização de diagnósticos errados. "Se na rede privada é difícil que o médico consiga fazer o diagnóstico, na rede pública só com muita sorte e insistência. Tem muita criança autista sendo diagnosticada como esquizofrênica pelo SUS. Mas isso era o que a medicina dizia 30 anos atrás. Conheço uma criança de oito anos que toma medicamentos para esquizofrenia, mas é autista. Isso é um absurdo".
Presente no evento, a coordenadora dos Direitos das Pessoas com Deficiência da Prefeitura de Belo Horizonte, Cristina Abreu, reconheceu que a falta de qualificação de pessoal é um entrave, mas ressaltou que o Executivo vem trabalhando para solucionar os problemas, articulando áreas antes dispersas. "É uma construção. Estamos organizando o sistema e fazendo capacitações", explicou Cristina, ressaltando as dificuldades de financiamento das políticas em função de uma crise na saúde que vem desde o governo federal.
Tratamento especializado
Para a presidente da Associação de Pais e Amigos de Pessoas Especiais (Apape), Maria Aparecida de Oliveira, a união de diferentes entidades e famílias ajuda a luta por melhorias nas políticas para autistas. "É a possibilidade do grito pela necessidade de apoio. O autismo até uma década atrás era considerado uma incógnita. Essa união, com troca de informações, fortalece a causa. Trocamos experiências e até o sofrimento", diz. "Muitas vezes colocam na mãe a responsabilidade pelo comportamento agressivo do filho. Isso destrói o trabalho que pode ser feito com o cognitivo dos autistas, que podem até passar de um diagnóstico clássico para moderado e leve".
Mãe de autista, Maria Aparecida defende trabalhos piscopedagógicos com os autistas, para além dos tradicionais tratamentos psiquiátricos ou psicológicos. "Eles precisam de atividades funcionais, terapia ocupacional, musicoterapia, convivência social. São pessoas de grande sensibilidade, que sentem se são amadas ou não. Como muitas vezes não correspondem, para a família, é amor incondicional, é doação".
Pós-graduação na área
Belo Horizonte vai receber, em maio, a primeira pós-graduação com foco em autismo comportamental do país. A iniciativa é uma parceira da ONG Cresce Down com a Faculdade Inesp, que vai oferecer o curso latu sensu "Saúde Mental com Ênfase em Transtorno do Espectro do Autismo (TEA)". Segundo as coordenadoras do projeto, a intenção é desmistificar rótulos e apresentar as atuais pesquisas na área, tanto para profissionais de saúde quanto para pais de crianças autistas.
Para divulgar a primeira turma, as organizadoras participaram neste domingo do ato na Praça da Liberdade, distribuindo panfletos sobre o novo curso. "A intenção é trazer para os profissionais as ferramentas para lidar com esse público (autista). Muitos não sabem como lidar e acabam atuando sem a formação correta", explica Adriana Lima, presidente da ONG Cresce Down e uma das coordenadoras do curso em Belo Horizonte. De acordo com as organizadoras, embora já existam cursos, no país, voltados para o autismo, este será o primeiro com foco no comportamento autista.
"Teremos uma formação interdisciplinar. Será um divisor de águas", destaca a coordenadora nacional da Inesp, Emília Gama, ressaltando que o curso contará com professores norte-americanos especializados na área. Atualmente, a faculdade oferece cursos em 45 cidades brasileiras, e, em Belo Horizonte, iniciou recentemente uma pós-graduação com foco na Síndrome de Down. 

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