domingo, 8 de maio de 2016

Interação social de pessoas autistas


Por Gladstone Barbosa Alves – de Belo Horizonte: Continuação da Série sobre Autismo
Mais um artigo sobre o autismo e os autistas

De acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, versão 5 (DSM V), indivíduos diagnosticados com Transtorno do Espectro Autista (TEA) podem apresentar um ou mais de uma série de déficits. Em sua apresentação mais severa, o autista pode mostrar-se completamente incapaz de se comunicar ou falar, mas mesmo o mais inteligente e verborrágico autista exibirá problemas de comunicação social de algum tipo e nível. Mas, afinal, como um indivíduo capaz de exercer a razão, falar e expressar com precisão o que sente pode ter déficits de comunicação e interação social?
A razão reside na própria natureza do processo de interação social. De um modo geral, as pessoas não sabem – ou, ao menos a princípio e em um primeiro momento, não racionalizam ou intelectualizam – porque fazem ou mesmo como elas conseguem executar certas tarefas. Muitas fazem o que parece (sentem) ser certo fazer. A própria interação de uma pessoa neurotípica (“normal”) com um indivíduo autista pode soar “estranha” ao primeiro, sem que este, no entanto, seja capaz de dizer com precisão em que sentido. O processo de comunicação social, da forma com que evoluiu, não tem como objetivo – ou ao menos não como objetivo principal – maximizar a eficiência da troca de informações entre os interlocutores, mas sim ser um instrumento para formação e manutenção de relações (úteis) entre as pessoas. Ainda que parte significativa das interações humanas pareçam completamente ausentes em conteúdo prático, não seguir seu roteiro básico pode levar um indivíduo a sofrer graves consequências sociais.
Qualquer déficit em interação social deve ser entendido em um contexto mais subjetivo das expectativas sociais que emanam de cada sociedade, cultura ou grupo de pessoas. Nesse sentido, uma pessoa incapaz de se comunicar no idioma local se encontraria em um cenário pior que o de um autista (de alto funcionamento), mas nem por isso sua situação seria qualificada como resultante da presença de um “transtorno mental”.  Mesmo o domínio do idioma formal não seria suficiente para o funcionamento adequado em qualquer grupo de pessoas ou subcultura, que podem exibir expectativas e regras sociais muito diferentes umas das outras. Muitas pessoas “normais” enfrentam problemas de comunicação e interação fora de seus contextos familiares, profissionais e culturais, onde suas perspectivas e talentos particulares são mais úteis e portanto mais valorizados.
Embora a complexidade e o propósito da comunicação e interação social em geral não sejam aspectos explicitamente considerados pelas pessoas, essas terão facilidade para identificar, ainda que em um nível não consciente, aqueles que falharem na satisfação das expectativas subjacentes. Tais falhas serão atribuídas, quase sempre, à uma recusa a agir em conformidade com as regras sociais – e não como falta de conhecimento ou dificuldade de processamento de informações sociais (uma possibilidade nem sequer reconhecida por quem as absorveu de forma natural). A capacidade de usar a linguagem para expressar de forma precisa os próprios pensamentos e emoções não é suficiente. É preciso tomar parte em um jogo complexo com regras e instruções que não estão disponíveis em lugar algum (nem mesmo nas mentes de seus melhores jogadores).
Gladstone Barbosa Alvesmestre em Engenharia Elétrica pela UFMG, atualmente trabalha na execução de projetos de Pesquisa & Desenvolvimento para empresas do setor elétrico brasileiro. Tem 38 anos de idade, é pai de um casal de crianças autistas e ele mesmo diagnosticado com autismo. É vice-presidente do Instituto Superação, uma organização sem fins lucrativos baseada em Belo Horizonte que trabalha com a promoção de políticas públicas voltados para indivíduos autistas.
Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins.

http://www.correiodobrasil.com.br/interacao-social-de-pessoas-autistas/

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